[não me leia]

Published on January 6, 2026 at 9:06 PM

Parada na paragem ou enquanto passo a passadeira, à espera - é quase sempre igual.

Se tenho alguma ideia é preciso que eu a agarre com força nos dedos e ponha as mãos no bolso em punhos bem fechados. Mas não me leia, não me leia, não me leia; eu te peço que não me leia mas se queres ainda me ler, não o faça agora e nem em nenhum instante que suceda o aqui - no quase presente. Deixe que marine minhas palavras confusas, deixe que durma no meio de uma grande confusão. Não vá embora, agora não - vá amanhã, de cabeça temperada. Peço que não me leia mas já não sei mais se essas palavras assim colocadas ainda fazem algum sentido.

Pois então fique cega e perca-se entre os felizes - sabe que pode me ligar se quiser, sabe que não atendo, sabe que já não respondo mais por mim pois sinto meus dedos tão duros que seria capaz de teclar com os dentes ( empilhe as chamadas, chame os desesperados). Nos prendemos com nossas línguas, desaprendemos os verbos, não sei conjugar, gesticule! Se nunca soube me ler, essa não será nossa hora, não me leia, não há tempo que nos salve - eu não sei falar tua língua, peço-te em vão, não me leia.

Se coloque num barril, abaixe-se e faça dele seu buraco, se encaixe, deixe sua marca, ajuste-o até medir um metro e sessenta e três. Se deite e depois deixe-se enterrar, serre a boca, abra bem os olhos como se fosse a última da última vez - sendo você sempre a última da última pessoa, a dona de todos os cochichos não descobertos. Seus beijos são mesmo doces, ecoando na minha mente. Volte, vá, ameaças não me faltam, diz que sim, faz que não, deixe pra lá, peço desculpas num tom irônico - você nunca perceberia.

Se cubra de terra, olhe para o céu, grite em silêncio, acredite nas estrelas: elas ainda te protegem a cabeça feito um chapéu estúpido - todas as vezes que usares um chapéu saiba que ninguém o acha tão estúpido quanto você. Oh menina, oh! Ninguém sabe que é a primeira vez que usa este chapéu. Pense na performance. 

Desde que partiste, a terra nunca esteve tão fria, tão fria quanto os teus pés. Se rasgue inteirinha, deite-se no chão, ameace de qualquer coisa, pegue o primeiro trem (das quatro e quinze da manhã) como se fosse um atentado à sua própria vidinha demasiadamente (secretamente) miserável. Se enrole em barbante de confusão entre o antes e o agora mas nunca pense no depois.

É a vergonha, são suas vergonhas, aquela que deus criou para ser escondida, disfarçada - passe três dias nascendo e se pondo mascarada de ilusão. Se envergonhe. Só assim, discreta, em segredo… se permita ao pecado, morda a maçã, pule a janela do éden e não conte a ninguém - não vá até mim, não compartilhe os teus erros, as tentativas, guarde tudo isso dentro de si; e antes da explosão (BUM!): talvez você me leia. 

Quando estiver farta, ponha-te para dormir num ninho confortavelmente conhecido - quente e tranquilo - se deite nos braços maternos e no peito não muito farto da irrelevância. Mas de novo, não me leia, te imploro. As coisas todas vão sair como num vômito. Descontrolada.

Olhe para cima. Olhe (para mim). Não como quem quer mas como quem está constantemente tendo que se lembrar de levantar a cabeça, como quem anda a olhar para o chão, como pessoa terrena fantasiada de algo que nunca será: uma pena, uma asa, uma palavra; engolida e mastigada. E depois de finalmente entrar em minha casa, não me leia, esfregue os pés no chão como quem não quer mais ir para a frente, não me leia, resista, não me leia, tome um ar mesmo que com teu nariz sempre tão congestionado, não me leia, descubra a si mesma antes, não me leia, tarefa essa que só tem fim junto de ti - por isso nunca me leia.

Pegue aquele bilhete que te escrevi no último inverno, aquele nosso segredo, quebre as lembranças e enfie tudo isso dentro da boca. Cuspa no chão. É a agonia que sinto quando não escuta o que te digo e realmente não me lê. A verdade é analfabeta, todas essas letras molhadas de cuspe estão dançando sobre o papel amassado, até eu que sou eu, que giro e giro feito espiral, até eu que sou eu, não sou sequer capaz de me ler - tampouco escrever.

Não me leia pois não te escrevo mais, somos todos mentirosos profissionais dando cambalhotas para trás. Fingindo ser possuidores de tal habilidade, meu amor, não sei mais como posso te amar. Você sente meu fôlego aflito e conflituoso quando infiltrados estamos nessa noite fria de natal, enceno qualquer coisa com meus pés como quem disfarça uma batalha travada com o próprio espírito, como quem faz a guerra e pede pela paz. 

Faço a mesma piada com o bob dylan, fumando um cigarro. Nós trocamos os mesmos olhares que atravessam uma flecha, a mais comprida deste mundo, me erra o tiro, acerta o meio da minha testa. Sei que ainda mora num continente tatuado nos meus dedos, diz ser tua pangeia. Tua? Não. Minha. Não. Não há nada aqui que seja meu, eu despertenço a este lugar, eu vou embora antes que você sequer me cumprimente. Agora. Não, agora não, já foi (foi de novo, outra vez, você perdeu, menina, ninguém vai vencer, nós todos vamos perder, você não percebe? Não percebe que perdi dentro de um parênteses).

Não me leia, a linha de pensamentos frágeis - já tão desprovidas de ordem no tempo que sempre antes de colocá-las em seus lugares, erroneamente penso que já o fizeste antes. Esta, agora, é minha única arma, minha última flecha (não me leia) são as minhas palavras. Além de sempre enganada, me sinto - e talvez seja mesmo - especialmente tola, visto que meus punhos, sempre cansados, mandam muito mais em mim do que a mente em qualquer estado elétrico de agitação. Talvez seja isso que te fez tão cansada, de tudo, de mim.

É impossível medir forças comigo mesma, sendo um mero instrumento vagante: armada e à espera, na espreita. Consciente em relação a própria despretensão, a própria pequenez.

Aceite os fatos como objetos, como botões no chão, ao léu. Conte com sua sorte, ganhando ou perdendo - tudo é mesmo teatral. O material me esgota, cansei de ser algo entre o palpável e o abstrato. Ou é ou não é. Ponto final. É preciso muito fôlego para viver de travessão. Se atente ao fato de que espero sempre em movimento: nunca corro, apenas caminho. Mas por favor, não me leia. Se te agrada me ler, não o faça, não agora, tampouco quase depois. Só de pensar na possibilidade, só de pensar em algo do tipo, sou tomada pelo desejo inverso da palavra.

Quando chega o ônibus que tanto espero, noto que mesmo parada continuo em movimento. Mudo de lado como se houvesse algo de errado comigo (e tem). Bebo água, fumo minha última bituca. Tive a impressão que me leste, não me leia pois quero parar de escrever - é uma ameaça. É que tudo o que sei e aprendi não valem de nada se meu valor material mundano é de aproximadamente vinte cêntimos.

Então, não me leia, que já não presto mais e nem faço questão do sentido. Não me leia que palavras estas eu não possuo, não são mais de ninguém quando jogadas ao vento feito pena de ganso, fantasiadas, fantasiosas, não me leia, são todas fingidas. Não me leia pois mesmo que tentasse, não sei se seria capaz.

Não me leia, suplico, eu sinto pavor só de imaginar que tentou o fazer - suponho que não tenha conseguido.

Lisboa, dezembro de 2025

S.A.

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